Ervas- Mito e Magia

Como poderia o homem primitivo duvidar de que as plantas eram mágicas? Todo outono, nos climas temperados, seres humanos pré-hitóricos viam as florestas morrerem: as árvores soltavam as folhas; o mato e as flores secavam; só umas poucas sempre-vivas mantinham uma semelhança em relação à vitalidade do verão. Mas, chegada a primavera, novos brotos rebentavam da terra. Certamente qualquer ser que ressuscita todo ano deve ter uma grande magia.

Nos trópicos, não há o mesmo frio invernal assassino, nem mesmo uma nítida mudança das estações. Contudo, a vegetação original era luxuriante e uma imensa variedade de plantas brotava, reproduzia-se e espalhava-se, com um vigor e uma rapidez que não devia parecer menos milabrosos que o ciclo sazonal de crescimento, morte e renascimento.

Nossos ancestrais distantes não precisavam ser botânicos formados para observar e apreciar a admirável energia e a diversidade do mundo das plantas. A necessidade fazia deles aplicados estudiosos da flora local. As plantas forneciam alimentos, remédios, roupa e abrigo.

Já dependente das plantas para as necessidades materiais, os seres humanos voltaram-se naturalmente para o reino vegatal em busca de ajuda na luta indômita para dominar o meio ambiente e o destino. As plantas pareciam ter poder mágico: se pudessem dominá-lo e dirigi-lo, isso sem dúvida traria alívio da infelicidade e da doença, controle do futuro e paz com os deuses.

Inúmeras espécies foram testadas por feiticeiros, que esperavam conquistar esse poder. Muitos nomes de plantas ainda dão testemunho de tais experiências. Verbena, por exemplo, é o nome genérico de muitos arbustos e ervas. Lembra o uso de uma das espécies, a V. officinalis, a verbena propriamente dita, em festas religiosas da Roma antiga.

O alho é uma planta que há muito desfruta da fama de instrumento de magia branca. Durante séculos, essa erva doméstica não apenas acrescentou vitaminas e minerais aos alimentos, mas também consta da tradição popular que tenha defendido as pessoas conta vampiros e contra a peste. Mesmo hoje, avós chinesas, gregas e judias às vezes presenteiam um dente de alho aos netos bebês, como proteção contra o mau-olhado.

Em contraste com a reputação de extraordinária benignidade do alho, outras plantas foram assinaladas como malignas, devido a suas qualidade venonosas ou narcóticas. Muitas vezes serviram como agentes da maldade humana.


A Botânica Sagrada dos Faraós

Para todo lado que os egípcios olhassem, descobriam sinais da presença divina. Nos lótus azuis e brancos que brotavam nas lamacentas partes rasas do Nilo, eles viam um símbolo da irreprimível fertilidade da natureza. Foi uma flor de lótus, acreditavam, que emergira do oceano no momento da criação. O papiro, prolífico junco do Nilo, não apenas lhes fornecia papel, mas tornou-se para eles um símbolo de frescor, juventude e vigor. Um amuleto em forma de papiro assegurava longa vida a quem o portava. Usavam-se buquês de papiro para enfeitar ritos religiosos. Os egípcios acreditavam ainda que colunas de papiro - pilares de pedra feitos no formato de feixes da planta - conferiam aos templos as virtudes espirituais do junco.

Outra planta reverenciada pelos egípcios era a cebola. Embora fosse um dos pratos favoritos no antigo Egito, servia muito mais que como um simples legume. No aromático bulbo da cebola, os egípcios descobriram um símbolo do universo. Eles acreditavam que, assim como cada camada envolvia a outra, o mundo subterrâneo era envolvido pela terra que, por sua vez, era circundada pelo céu. Como algumas pessoas hoje juram sobre a Bíblia, os egípcios juravam sobre a cebola. Também presenteavam cebolas a seus deuses, como oferendas de sacrifício.


As Plantas na Mitologia Grega

Na literatura e nas artes gregas, plantas aparecem como símbolos de seus respectivos deuses. Também eram consideradas elos vivos com eles. Um bosque de carvalhos em Dodona, no noroeste da Grécia, tornou-se o oráculo de Zeus. Ali, ouvindo o farfalhar das folhas de carvalho, os sacerdotes interpretavam a vontade divina do deus. Outro oráculo, ainda mais famoso, era o santuário de Apolo em Delfos, onde uma sacerdotisa previa o futuro, em transe, estado que supostamente atingia ao aspirar a fumaça alucinógena de ervas secretas queimadas.

Deméter era a deusa da agricultura. Podia negar colheita ao camponês. Para conquistar seu favor, os gregos a cortejavam com sementes de papoula, pois diziam que ela usava uma guirlanda da papoulas entrelaçadas com cevada e trigo.

Poemas e histórias contavam que algumas plantas conhecidas haviam proporcionado abrigo aos perseguidos. Quando a ninfa Dafne, cujo pai era um rio, fugia da perseguição amorosa do poderoso Apolo, identificado com o sol, pediu ajuda ao pai. Ele transformou-a num loureiro, que se tornou sagrado para Apolo.

As flores serviam também como chamariz. Um dia, quando a filha de Deméter, Perséfone, colhia flores na Sicília, deparou-se com uma mais bonita que todas as outras. O nome grego dessa flor vem de narke, que significa "dormência" e se traduz como "narciso". Esse mito, portanto, pode referir-se a uma espécie do gênero muito depois nomeado cientificamente como Narcisus, que inclui as várias espécies de narciso. De qualquer modo, quando Perséfone pegou a flor, abriu-se um abismo e Hades, o deus da região dos mortos, agarrou-a e levou-a para fazer dela sua noiva.

A história não termina com o rapto de Perséfone. Deméter, furiosa, e em seguida desesperada com o destino da filha, fez o mundo ficar frio e estéril. Nada brotava. A raça humana ia morrer de fome. Então, Zeus ordenou a libertação de Perséfone. Mas havia um problema: quando vivia na região dos mortos, Perséfone comera uma semente de romã, o que a obrigava a ficar casada para sempre com Hades. Nesse ponto, Zeus acertou um acordo entre a mãe e o marido da deusa, determinando que Perséfone passasse um terço do ano com Hades. Assim, todo ano, quando ela descia à região dos mortos, Deméter mergulhava o mundo no inverno.


Mitologia de Outros Povos

Outros povos criaram suas próprias mitologias fascinantes em torno das plantas. Dessas, talvez nenhuma tenha um símbolo mais impressionante que o Yggdrasil, o grande pé de freixo da mitologia escandinava. Sempre verde e imortal, essa árvore era inconcebivelmente grande, com galhos que chegavam ao céu e uma folhagem que sombreva todo o mundo. Nessa "árvore do destino" estava a sorte do universo. Ela canalizava as fontes da juventude e do saber, abrigando e alimentando ao mesmo tempo todos os tipos de animais. Mas uma de suas raízes penetrava direto no inferno, e era incessantemente roída por uma serpente maligna. Quando, por fim, a grande Yggdrasil viesse a baixo, toda vida cessaria.

Outra rica tradição de folclore das plantas se originou com os druidas, sacerdotes dos antigos celtas. Além de usarem ervas em seus ritos, as árvores eram objeto de especial veneração por eles. Segundo a mitologia celta, quando as forças das trevas ameaçaram o homem, as árvores vieram em sua defesa. Na batalha que se seguiu, os gigantes da floresta ganharam três presentes para o homem: o cachorro, o veado e o abibe, uma ave de peito branco e crista negra. Como sinal de gratidão, os duidas tomaram a palavra celta para árvore como seu nome e fizeram das árvores a base de seu alfabeto. Para o A, desenharam um olmo (ou ailm, em língua celta) estilizado; como B, uma bétula, e assim por diante.

Um exemplo de folclore druida trata-se do visgo, também conhecido como erva-de-passarinho. Pequeno e estranho parasita, o visgo tem hábitos singulares, que provocaram a adoração dos druidas. Parecia desafiar a natureza, vivendo a vida toda no alto, jamais descendo à terra, habitat natural das plantas, para ali deitar raízes. Além disso, o visgo parecia brotar do nada (na verdade, as novas colônias se estabelecem quando pássaros, viajando de árvore em árvore, expelem as sementes nas fezes). Para o observador casual, a reprodução e disseminação da planta pareciam de uma espontaneidade mágica. Os druidas o declaravam - e o carvalho no qual brotava - sagrado. Viam o carvalho como seu maior alidado.

Seis dias depois da lua nova, sacerdotes druidas com vestes brancas entravam nos bosques de carvalhos para catar o visgo. Um deles subia na árvore para colhê-lo com uma foice de ouro. Outros sacerdotes que ficavam à espera, embaixo, pegavam os ramos que caiam num manto branco. Acreditavam que se os ramos tocassem o chão perderiam suas virtudes, enviadas pelo céu.